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quarta-feira, 2 de março de 2011

Nos trilhos e na parede cinza.




Havia uma parede cinza, um teto cinza e um barulho de arranhar a garganta e zunir os ouvidos.  Era início de um fim de semana, que de um modo leve desandou aflitivo. No relógio dez minutos da hora marcada, e o som do primeiro vagão já soava misturando-se com a música clássica tocada no ambiente, de maneira que embaralhassem todos meus pensamentos aos sons, a massa de gente e a parede cinza.
Num estalar de marchas, vi meu corpo encarar a solidão. E em uma linha fina atrelei minha vida a um trilho e naquela parede cinza eu encarava meus maiores medos, como se projetasse um filme melodramático de meus fantasmas escondidos.  
Passou mais um vagão, e o tempo não pareceu acelerar com ele. A frase repetiu-se várias vezes:  “Cuidado, Trilhos energizados!" . Uma passagem me alertou do perigo.Não pude pisar no que me conectei, e pensei: “é uma ousadia da morte me encarar assim”. 
Então desviei o meu olhar daquela droga de parede! Estreitamente me focalizei em uma brecha de luz, mas não havia vida nenhuma, naqueles blocos cinza que ao longe avistei, tanto que o décimo andar daqueles prédios parecia estar sobre a minha cabeça, pronto a ruir.
Um agudo som me clamava a atenção novamente ao trilho daquele metro. Meu estomago parecia um concerto desarmonioso. Ofegante eu me aproximava daquela parede, mas me afastava ao ouvir vozes se aproximando lentamente. Sentei-me novamente, sem espera alguma.  Olhei para o lado e uma mulher ironicamente me sorria como se já me vencesse. Eu já não estava sozinha naquela minha agonia.  Eu, e a tal mulher prepotente, parecíamos nos odiar, algo nos ligava e eu já nem me importava mais com minha própria morte.  Minutos após, uma espécie de salvação humana saltou de um dos vagões, e eu corri ao encontro desprendendo-me da parede, dos trilhos e das sombras.Um sopro de vida. 
Abracei forte com saudade a minha salvação, atrelei-me a um fio forte e então prossegui erguida na trilha da vida.  

                                                                                                


Bruna Fávaro


"Amizade  é matéria de salvação
Clarice Lispector - Felicidade clandestina 


Dedicado a Rafaelle Melo, minha amiga alma.  
www.serinverso.blogspot.com



Saber parar é a expressão de uma força interna de quando já não se vê mais o porquê lutar. Desistir. Reconhecer que não há mais chances nem metas. Apenas não há mais nada, e os músculos vinham se arrastando em um cansaço descompensado, por um orgulho desalmado e cego. Abaixar as mãos e retirar a ordem de batalha era o movimento necessário. Mas necessidades nem sempre movimentam e costumam serem fadadas a doer. A alma, porém, segue com a sede da verdade, da liberdade de olhar para dentro e voar. Respirando fundo, abrir os portões do coração enclausurado e deixá-lo dizer como tem sido viver sufocado. Direitos humanos. Elevando todo corpo em busca do precioso respirar e depois dos primeiros esforços para se acostumar com as condições novamente favoráveis, mas tão estranhas, o alívio de perceber os pulmões dilatando-se novamente e recebendo o ar honesto e calmo. Jogando para alto tudo que pesava, com os olhos mareados, pela dor do desapego e pelo amor próprio reconquistado. A paz invadindo todo seu ser, trazendo de volta tudo o que morava no interior, tão seu, e que havia sido expulso por cobranças e falsas dívidas impagáveis. Declaro então, para o devido fim, alforria para esse coração acostumado a bater, a sofrer, mas impreterivelmente com vocação a pertencer-se.
Por Rafaelle Melo sobre "perdas e ganhos" 


8 comentários:

  1. Olá, Brunaaaa (:
    Estou seguindo aqui, minha flor.
    Seu blog é lindo e tem estórias ótimas...
    Parabéns, querida!

    Beijos =*

    Com amor,
    Cynthia.

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  2. Cinza...Essa é uma cor interessante!
    Já viu de onde surgem os diamantes?
    De enormes paredes cinzas.
    ;)

    É. Acredito que sempre em meio ao cinza, algo valioso irá aparecer para brilhar na nossa vida!

    Um beijo.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Você me deixou muda...de surpesa e de uma alegria misturada com uma emoção e resultante de uma certeza: a eternidade da nossa amizade e da nossa salvação.


    Sua vida, que traz incrustada a certeza da morte, que não precisa assustar, é uma dádiva à minha existência.


    P.S.: Ainda não tinha visto seu post quando postei no meu blog nossa primeira parceria. Estou emocionada com nossa conexão, com nossos trilhos que sempre terminam por se encontrar.

    Amo-te, com amor de salvação!

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  5. instante de clareza de sentimentos, gosto de tudo que assusta, e é vida.
    Resgatado em um abraço, toda a firmeza e segurança necessárias para se manter nos trilhos. Se não houvesem essas salvações, seriamos só um descrrilhar constante.
    Descarrilhar não é de todo ruim, por trazer consigo a possiblidade de voltar aos trilhos assim que o socorro chega.

    Bjs Bruna

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  6. Muito bacana teu espaço...
    Ja estou seguindo, espero que me sigas tbm...

    " Retendo tudo que é de bom proveito, pois só assim me recostruirei..."

    Um abraço do Rafah!
    http://eternizadoempalavras.blogspot.com/

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  7. podemos ficar olhando para uma parede cinza por toda a vida mas é só olhar do lado e ver que existe um mundo de possibilidades.

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